quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

 Final de Festa   (conto)

Caía a tarde domingueira, palitos quebrados, a cachaça inspirando a conversa. Pedro, o mais tagarela, limpava com um lenço que fora branco a farinha em volta dos beiços. Noninho, o chefão, um pouco bêbado também, mas seguro e penetrante, olhava seus homens. Pimpa, regateiro e malicioso, conversava falseteando com todos.
Agarrava com unhas e dentes uns restos de carne, bem trabalhada aliás pelo Zeca, um negro-aço esguio e feio como o diabo. Pimpa trazia sempre uma correntinha com um santo balançando. Sorrisos para todo mundo. Mesmo eu os recebi daquele nojento. Ele era a fêmea do pessoal, impedido de sair por aí, por seu Noninho. Com um papel relevante na hierarquia da mina; após a morte da esquelética Maria, ficara de cama e mesa com seu Noninho, o qual deixava Pimpa nas horas de folga para os homens... Era a imprensa da turma e agente secreto do chefe. Os trabalhadores sabiam disso, entretanto em dia de domingo, como aquele, em que havia uma só refeição (embora enriquecida por carne verde) a branquinha abria a boca de todos; lavava-se a roupa suja, e Pimpa tendo muito que fazer...
Mineirinho, olhos avermelhados, fala mole da embriaguês, rezava o costumeiro Padre Nosso, se benzia indo para o terreiro. Os outros falavam, mais do que deviam, se bem que o chefe houvesse ido para a cama fazer o quilo. Era o blá-blá-blá infernal, onde se discutia o mastigar de boca aberta do João, um retardatário no banquete. Papagaios impulsionados pelo aguardente.
--Cuidado com este aqui! – gritou Pedro, enterrando o indicador no local de fazer injeção no Pimpa.
--Com esse aí eu faço assim... – respondeu  Beltrão, num gesto obsceno. Gargalhada geral, muxoxo de Pimpa.
--Qual nada, Noninho é um fío duma p...
E o bate-papo foi esquentando, com injúrias de todos os lados e anedotas, ressaltando-se as vantagens. Mais tarde o Zico deu um chute na traseira do efeminado que passava por ali. Risos e chacotas e alguma briga. Almeida se levantou,  encostou-se a Zico assoprando-lhe meia dúzia de nomes feios, dentes cerrados em sentido de ódio, acrescentando:
--Cê vai acabá que nem o Batucada, no açougue do Zeca... A fala avivou memórias, serviu como lembrança.
--E ninguém mais sabe do Chico Preto, hein gente! lembrou o peão Pedro.
Todos ficaram atentos.
--Seu Noninho falô que deu a conta pro infeliz; e fez ele sumí no mundo...
--O negócio num tá me cheirando bem não – disse  Nonoca chegando-se ao grupo palrador. E insistiu mais: --Essa carne que nóis comeu quarta-feira, num era largato coisa ninhuma... Escumava e era meio doce... cum gosto de Chico, cruz-credo! (cuspiu).
O terror estampado nas expressões era evidente. João ainda mastigava qual porco, todavia deixou de fazê-lo, pondo inclusive o que não comera em vômito; desandou pro mato. Pimpa correu imediato ao quarto do amo; e Nonoca, ao mesmo tempo, ganhava a porta da frente e sumia na estrada. Eu tremia diante do barulho e da lembrança hedionda... Entretanto sequer pude mover as pernas.
--Zé de Pedra! – chamaram. Fiquei parado, grudado, enquanto entrava no recinto Noninho, e minha barriga se revolvia toda; era um medo semelhante ao de um pasto dominado por um touro feroz e cobrador. Sentia-me ao mesmo tempo o acusador do delito e o açougueiro destripador. Essa ideia estava acompanhada por uma náusea, que já me dava um gosto acre misturado com amargor, na boca. Imaginei um buraquinho onde pudesse entrar em defesa; depois uma pulga dotada de superpatas para em dois pulos me safar longe. Não me lembra ter imaginado ser um herói forçudo para amassar aquele cão fanhoso. Em verdade fiquei pregado no lugar.
--Zé de Pedra, corno disgraçado! Cadê (‘pof’ na minha cara) o diabo Nonoca?
Antes pudesse responder já estava no chão, caído  do banco de três pés, para trás, impulsionado pelo sonante ‘pof’ do chefe; havia então um gosto de sangue na boca, igualzinho quando dizia palavrão perto de minha mãe... Eu no solo; Noninho já na porta para o terreiro, esbravejando, Taurus na mão. Pimpa em direção do marido passava por mim, me agradando, ajudando-me no meu erguimento; aquelas mãos sujas, cheirando decerto a esperma, asquerosamente deslizando em minhas costas;  enojei-me.
Ninguém sabia de nada, é claro. Todos, um a um, estavam fazendo isso ou aquilo no momento; não viram nadinha nem sabiam de Nonoca; apenas que fugira pela estrada. O comandante daquele exército maltrapilho disparou ao acaso uns tiros, fez o sinal da cruz e foi para dentro do quarto. Pimpa ia ao lado, choroso, a pedir carinho.
Olhei a cena. Ruminei aqui dentro, não devo ser muito corajoso.
Marília  28.1.1968;  n° 431-025

        
        
        
        

         

Nenhum comentário :

Postar um comentário