segunda-feira, 6 de maio de 2019


(conto) Barafunda

1.Não é Barra Funda, um bairro e podendo ser uma urbe ou nome de alguma rua nas cidades do país. Não. Barafunda.
Antes do caos era a ordem decerto; enfim onde se podia ter à disposição (ou imposição) o bem contra o mal; num maniqueísmo dos melhores. O casal na saleta de tevê; a qual servia para oportuna (às vezes importuna...) visita e também como biblioteca, embora nisto um exagero havendo apenas uma estantezinha dessas pregadas na parede a enfeites e bibelôs; onde uma Bíblia (velha e descansando do trabalho dos cupins a aguardar virar peça dalgum museu); e meia dúzia de outros volumes sem lombada vistosa e ainda mais dois livros técnicos a servir ao rapagão da jovem bela, um desses exemplares com título em inglês.
Bem, é isso, era assim. Assim ambos sentados na saleta à meia-luz e sob reflexos das luzes do aparelho de televisão – aí deu-se um desastre: certo apagão! O ambiente em paz, não se cortando a corrente elétrica do prédio e do apartamento ao gosto pequeno-burguês. O companheiro no casal se levantou foi examinar lá fora – tudo escuro, apenas a se cruzar faróis dos carros lá embaixo; inclusive ouviu tiros e se assustou. Fechou imediato a janela de vidro de correr e para desencargo de consciência que a paz exige pôs um cadeado. O que uma família num edifício sem solenidade nem milionário teme é o ladrão, se bem que nesse mal, como escalaria o bandido os pavimentos até a saleta! Voltou a se sentar, a ajuntar o casal.
A tevê rateava matracava estertorava, tataratava enchendo de balas a sala; o filme (com licença por vezes da propaganda) o filme era de guerra. Antes assistiram já na madrugada um erótico; o macho desandou nos carinhos e levara sua parceira ao quarto deles; no retorno à rainha do lar a vomitar bala, aí a jovem mulher reclama dele "que homem insaciável!" Porém relevou relevaram a ofensa se entregando ambos à guerra. Então os americanos arrasavam o vietcongue: a matar com a mesma arma pesada e o mesmo carregamento mil homenzinhos do mal; no entanto reapareciam outros soldados do mal qual num formigueiro. Ela, não a guerra, ela comentou seu pensamento alto ao companheiro "ainda bem que o nenê dorme". A fita prosseguia, claro em concordância da propaganda, tataratavam as armas de repetição, quase assustando as letrinhas da legenda, as quais passam sempre depressa a acompanhar, ela bem lendo ele não, um pouco curto da vista; entretanto sabia alguns termos do inglês pelo escritório onde trabalhava; enfim dando pra entender porque guerra a gente já entende de antemão. Depois veriam novo filme, também de violência de guerra na guerra do bem contra o mal, o mal qual formiga esmagado pelos soldados americanos, agora com legenda mas dublado, ambos a viver a trama, a matança noutra área asiática, aqueles soldadinhos miúdos como saindo do buraco e os tiros certeiros os abatendo. Lá embaixo, de lá debaixo subiam zunido de motores e balas, o casal a salvo. Não da tevê, a qual triturava com tiros em repetição contra o mal. Nisso tocou alertando o celular dela, o dele emudecido desligado (ou como veriam a luta do bem contra o mal!) Responde rápido a mulher, pois a propaganda gritava o reinício do filme, da guerra. Do lado de lá, não se diria além do fio, no lado de lá a voz da amiga insistindo nas suas confissões e confidências... a parceira comenta "não implique com minha amiga Francisca, ela é chata e insistente porém melhor que suas duas ex-namoradas". Ele empurra longe o celularzinho da companheira para que esta não perdesse lances da fita e os tiros contra o mal e quem sabe na erradicação das forças do mal pelas armas bem-intencionadas do bem. Assistiam quase abraçadinhos, talvez ao final do filme, quando a parte feminina na sua intuição ou sexto sentido se levantou, ele se ergue também; ela se encaminha na direção do quarto do nenê, antes precisando passar pela cozinha...
2.O nenê dormia. Quer dizer, dormira vencendo com ajuda materna horas antes a dor de barriga por que passara; chazinhos comprimidinhos liquidinhos de caixinha; em suma, ficou bem e entregue ao berço ao sono ao sonho, nunca ao pesadelo naquela idadezinha. Depois acordou. Não chorou permaneceu a brincar na luz à meia-luz do aposento. Esperneou meio incomodado e resolveu tentar ficar de pé na guarda do berço, o berço cedeu um pouco, elinho descendo pela fresta que o espirra ao chão estofado com tapete ainda a cheirar coisa nova. Se arrastou se arrastou de gatinhas pra lá pra cá; interessado em tudo que oferece a liberdade e sequer teve ímpetos de choro. Passa pelo Mimi, Mimi acordou foi à vasilha de ração, voltou raspou-se ao menino pra lá pra cá nas perninhas um pouco encolhidas no esforço a engatinhar: o gato imediato dormiu ronronou apagou. A gentinha não. A ficar até mais ativa vendo tanto espaço sem tolhimento. Chega à porta, uma porta a se levantar como pudesse, a abertura dela cedeu, aparecendo-lhe Lulu. Lulu um cãozinho nenezão, desses cachorros grandalhões porém bobos, bobo até no andar; fosse luluzinho de se pegar no colo, mesmo assim gigante bom e manso; fez dupla com o filhote humano, este gatinhando pra todo lado, elão à sua beira feliz com o cheirinho de gente da sua gente e pela liberdade não costumeira no quarto e agora na cozinha. Havia no entanto um senão, se não vários senões...
Nisso o garoto chega na parede e tenta com algum sucesso a janela; esta por preocupação paterna fechada ferrada a cadeado para evitar o pior, nunca a gente sabe o que poderia ocorrer. Não alcança na alturinha a janela mas vê, entrevê, reflexos dos automóveis lá embaixo no escurão do apagão, os fachos dos faróis; ouve tiros não conscientizando aquilo. Desiste. Se põe, se repõe de gatinhas a se arrastar pra lá pra cá naquela liberdade não vigiada, chega à geladeira, olha a porta dela e não tem força bastante pra ver o que ver lá dentro (teria pensado sorvete!) Desiste, desistem, o Lulu em guarda ou só acompanhando, o Mimi ronrona longe. Chega ao fogão, não vê lá em cima e se apoia na tampa do fogão, esta cede abre... ah que gostosura – naturalmente já fria de horas – que gostosura de travessa com carne de frango regada às 'melecas' do tempero, vaidade expressa da culinária da mãe dele. Ele, não: eles dois, três não também porque o gato acorda e não se interessa, deformado no gosto pela ração. Já Lulu baba avança boqueia mastiga e é claro deixa cair muito no chão. O garoto toma guloso uns pedaços se enlambuza derruba o restante no piso, agora piso-frio da cozinha no entanto igualmente suja o tapete de seu quarto, pra onde a dupla segue se arrastando, ele a imitar gato, o gato a dormir; e Lulu a mastigar carne, presente do fogão arreganhado na abertura do forno.
Contudo não foi tudo: havia mais estragos... ah essa linguagem adulta! Tinha sim. Ele, eles por extenção o cachorro ajudando na bagunça, se espalharam pelos dois cômodos lamecando de gordura onde pudessem pegar; claro o cãozinhão não pondo as mãos nos objetos e paredes e somente pisando no tapete; deitara-se em final a dormir curtindo a comilança (antes levara pra sua casinha ossos do assado).
O cachorro não, o nenê se enrosca em tudo, examina tudo; logicamente não sujando de propósito, apenas a saber as superfícies e alturas das coisas. Com um drama – fosse drama nem a gentinha avalia assim – um outro somar ou a ficar mais gritante dando razão aos adultos enlouquecerem, ao menos se angustiar lamentar, o que próprio da linguagem dos grandes na espécie humana... O cocô!
O menininho tivera uma fresta, com certeza no tanto forçar sem querer sem pensar sem se conscientizar – a fresta abrindo a fralda, desde a descida escorregado do seu berço até àquela hora. A hora do fedor  e do estrago (ah essa fala adulta!) – pois 'lamecara' toda a casa, as partes debaixo da casa, do apartamentozinho, com fezes! Sim, estava de saco cheio, isto é: com excesso de porcaria, a que lhe custara antes dores terríveis e gritos dos quais sequer se lembrando.
3.Quando mamãe abrira a porta de fechar o casal na luta televisiva do bem contra o mal; defrontou-se com o estrago em regra: tudo a quase lumiar do sujo impregnado, cadeiras pés da mesa paredes e paredes do fogão e da geladeira, tudinho em fezes amareladas e temperos engordurados de carne (ossos não, Lulu levara esconder na sua casinha) tudo, tudo a brilhar. Pior, a feder!
Ela ainda com as duas mãos pressionando as têmporas e boca aberta sem fala. O parceiro altão atrás dela mudo e de olhos estatelados igualmente, se mostrando acima da cabeça bela de sua cara-metade (a vizinha do 44 dizia sempre à do 55 que não eram casados apenas amigados mas não interessa isso:) só isto – era o caos!    S.Paulo  abril 2019

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