segunda-feira, 6 de maio de 2019


(conto) Melhora no Quadro

Era um velho bem velho, véio dizia a irreverência desocupada. Contudo ainda a andar – não empinado orgulhoso vaidoso; medroso nunca. Alguns na avenida ainda mais desocupados. Tem sempre uns sujeitos a falar abobrinha pra matar o tempo, o tempo não morre; desses indivíduos que ficam como que fiscais a fazer crônica nas vias públicas. E observando o senhor idoso, tendo um prato cheio: aquele, esse, não chega amanhã ao amanhã... sorri e um outro comenta, poderiam calar-se não calam. A acompanhante até que boazinha, passável ao menos e... Vão por aí, vão por aí afora a jogar conversa. Bem, passava e passava; e a julgar pela sabedoria da ignorância – estaria no centenário. Uns arriscam ser além, os otimistas votam no aquém.
Passava entrava no consultório do doutor, acompanhado e a andar miudinho passinho engraçadinho. Saía, saíam diante dos juízes, agora passando de volta. Volta no retorno como rotina exterior.
Por fora. Eles examinando o exterior.
No interior da clínica – embora apenas se consultasse com o geriatra e não com demais médicos – nesse interior travava-se verdadeira luta. No bom sentido: o clínico sempre a levantar o moral do paciente; ora a fazer sorrir aquela lindeza (a acompanhante é lógico). Enfim elevava o causídico da medicina o doente; sim, velhice não é uma doença, é doença apenas terminal dos seres humanos. Em suma, antes a atendente recebera os honorários do chefe; depois este aliviava aquele sofrimento a nunca findar, acabando suas frases o profissional a bater amizade e confiança nas costas centenárias (outra vez a discussão se mais se menos de cem) e encerrava já quase a fechar a porta de saída com um meio chavão, pois repetia por meses "está melhorando, melhorando sensivelmente".
Noutro dia noutra semana noutra ocasião sempre oportuna "anda a melhorar" acrescendo que seu cunhado, cunhado dele, dele servidor de Hipócrates, que o cunhado vivia a afirmar "a coisa está cada vez melhor!"
Numa das visitas, após exames de praxe receitas de praxe e o sorriso da acompanhante de praxe, ditou: o senhor anda melhorando e no dizer de meu cunhado vai melhorar mais ainda amanhã. Bem, mal saíram fechou a saída... Isso ontem, hoje não veio o par ele à consulta ela a expor sua boniteza; ontem velório e enterro.
Contudo se animou a jovem do velho já velho na sepultura; então entra a senhorita a buscar uns documentos do homem centenário, nem tanto porque menos de noventa. Curiosa, indaga com o que mesmo o cunhado do geriatra se ocupando, igualmente médico!?
Sim, respondeu não. Acresceu: empresário, tem uma funerária; por sinal em franco progresso.
Os juízes na via pública não sabiam, não souberam.
São Paulo   abril  2019
         



             



Nenhum comentário :

Postar um comentário