(conto) Melhora no Quadro
Era
um velho bem velho, véio
dizia a irreverência desocupada. Contudo ainda a andar – não empinado orgulhoso
vaidoso; medroso nunca. Alguns na avenida ainda mais desocupados. Tem sempre
uns sujeitos a falar abobrinha pra matar o tempo, o tempo não morre; desses
indivíduos que ficam como que fiscais a fazer crônica nas vias públicas. E observando
o senhor idoso, tendo um prato cheio: aquele, esse, não chega amanhã ao
amanhã... sorri e um outro comenta, poderiam calar-se não calam. A acompanhante
até que boazinha, passável ao menos e... Vão por aí, vão por aí afora a jogar
conversa. Bem, passava e passava; e a julgar pela sabedoria da ignorância –
estaria no centenário. Uns arriscam ser além, os otimistas votam no aquém.
Passava
entrava no consultório do doutor, acompanhado e a andar miudinho passinho
engraçadinho. Saía, saíam diante dos juízes, agora passando de volta. Volta no
retorno como rotina exterior.
Por
fora. Eles examinando o exterior.
No
interior da clínica – embora apenas se consultasse com o geriatra e não com
demais médicos – nesse interior travava-se verdadeira luta. No bom sentido: o
clínico sempre a levantar o moral do paciente; ora a fazer sorrir aquela
lindeza (a acompanhante é lógico). Enfim elevava o causídico da medicina o
doente; sim, velhice não é uma doença, é doença apenas terminal dos seres
humanos. Em suma, antes a atendente recebera os honorários do chefe; depois este
aliviava aquele sofrimento a nunca findar, acabando suas frases o profissional
a bater amizade e confiança nas costas centenárias (outra vez a discussão se
mais se menos de cem) e encerrava já quase a fechar a porta de saída com um
meio chavão, pois repetia por meses "está melhorando, melhorando sensivelmente".
Noutro
dia noutra semana noutra ocasião sempre oportuna "anda a melhorar"
acrescendo que seu cunhado, cunhado dele, dele servidor de Hipócrates, que o
cunhado vivia a afirmar "a coisa está cada vez melhor!"
Numa
das visitas, após exames de praxe receitas de praxe e o sorriso da acompanhante
de praxe, ditou: o senhor anda melhorando e no dizer de meu cunhado vai melhorar mais ainda amanhã. Bem,
mal saíram fechou a saída... Isso ontem, hoje não veio o par ele à consulta ela
a expor sua boniteza; ontem velório e enterro.
Contudo
se animou a jovem do velho já velho na sepultura; então entra a senhorita a
buscar uns documentos do homem centenário, nem tanto porque menos de noventa. Curiosa,
indaga com o que mesmo o cunhado do geriatra se ocupando, igualmente médico!?
Sim,
respondeu não. Acresceu: empresário, tem uma funerária; por sinal em franco
progresso.
Os
juízes na via pública não sabiam, não souberam.
São Paulo abril
2019
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