sexta-feira, 7 de junho de 2019


(conto) As Calças

Figura eu estar quase com pés no chão do piso frio naquela manhã gelada a me levantar me oferecer ao dia ao mundo – quando ela, elas a rigor pois singularizamos as calças, são um plural no singular caipira vamos lá, e não estavam elas; aqui um toque sutil da lembrança e isso próprio dos esquecidos, nem me lembrei, ontem ou trasanteontem vesti num descuido as calças em perna errada; sendo a primeira vez em muitas décadas desde que ponho calça, de homem mesmo isto garanto. Ri-me; gargalhei a burrice, minha experiência garantiu burrice, ri-me iria então chorar da bobagem?
Bem. Mal agora naquela hora – elas não se encontravam mais na cadeira feito cabide. Entenda-se: faço duma cadeira de pau o pau do cabide, hoje tudo de plástico portanto cabides são de plástico; enfim é o lugar onde deixo à noite ao dormir as vestes do dia.
Com tudo nada na cadeira, elona (a minha é à moda antiga caipira de pernas largas soltas) ela não estando. Ah depois me recordei haver na madrugada indo às necessidades fisiológicas relanceado a calça na cadeira e disse-lhe gozando: "óia aqui sadona, num saia daí". Em suma constatei de manhã não aguardar-me a roupa. Ora, teria deixado a peça no armário, um guarda-roupinha a esconder da vista a bagunça o estardalhaço duma casa; realmente apartamento barato na carestia do tempo, no tempo em que o ser humano se empilha um por cima doutro nos edifícios das megalópoles. Deu pra entender?
Entendamo-nos: a calça, insisto ser caipira emigrado à civilização e no mato matamos 'as' e pomos 'a', às calças dizemos a calça. A calça lá não estando não se encontrava no lugar a bendita ou safada, saíra fugira desocupara a cadeira onde estivera imitando gente por forma escorrida enquanto meu sono.
Bolas, claro me assustar um pouco; urgia ir pra vida, levantar-me higienizar-me alimentar-me e partir às exigências diárias e foi o que fiz. Acabei minha parca refeição e daí...
Cadê a roupa!  nós caipiras falamos "cadê" não o que é da... uai, onde? e a camisa, a cueca já em mim não desocupara fugira saíra estava comigo; mas e o resto!
Bobo, me puxei orelhas, ocê pega no armário umas novas outras limpas vestíveis usáveis e pronto. Olhei em muxoxo a cadeira vazia. Abri fechei o móvel, ele também vazio...
Conscientizei haver havido antes complô e daí as peças, combinadas, sumiram surrupiaram-se!!
E agora? me perguntei; ah primeiro pensei ladrão. Porém e aquele batido negócio de um ladrão em casa pobre só levar susto. Ladrão a se prezar deixaria o computador o celular o dinheiro vivo em notas usadas usáveis embora fedendo? Não fora ladrão. Tudo me fugira me abandonara.
Agora!? andava nu, seminu. Como faria.
Ocorreu-me no caso da calça fuga à parte alguma; sem destino decerto. Não ir-me-ia conformar. Tomei a sensata alternativa de procurar descobrir perseguir prender quiçá justiçá-la. Um corretivo e tanto faria (ainda não pensara qual).
Todavia que fazer imediato à descoberta fantástica daquele sumiço. Sair nu, seminu! e o público e o constrangimento dum caipira que sequer urinando na rua por vergonha na cara. Nisso imaginei ter apenas uma saída sem andar pelado na rua com a condizente prisão, aliás o viver já é prisão. Descontemos isso; que fazer a sair procurar achar perseguir prender trazer pra casa puxando pelas orelhas a calça, as calças se ficar melhor nesse pior aqui.
Aqui um porenzão. De que maneira o povo a me receber, e o explicar inexplicável inexplicado! Nisso pus qual ponte a minha situação psicológica e o povo me vendo. Porque nesta enorme selva de pedra comumente já me sinto estrangeiro, mesmo de calças. Daí como explicar inexplicado inexplicáveis?
Enrolei-me todo na toalha de banho, única veste sobrante no centésimo andar com meu apartamento preso e cheio de exclamações e interrogações. Assim me coloquei fora nas vias públicas para encontrar a vestimenta rebelde fujona (ou somente gozadora).
Não fui além da primeira alameda formal e bela e movimentada e curiosa e policiada. Deram-me, provisoriamente, no lugar umas calças riscadas enxadrezadas numeradas.
São Paulo   maio  2019

         



             

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