(conto) As Calças
Figura
eu estar quase com pés no chão do piso frio naquela manhã gelada a me levantar
me oferecer ao dia ao mundo – quando ela, elas a rigor pois singularizamos as
calças, são um plural no singular caipira vamos lá, e não estavam elas; aqui um
toque sutil da lembrança e isso próprio dos esquecidos, nem me lembrei, ontem
ou trasanteontem vesti num descuido as calças em perna errada; sendo a primeira
vez em muitas décadas desde que ponho calça, de homem mesmo isto garanto.
Ri-me; gargalhei a burrice, minha experiência garantiu burrice, ri-me iria
então chorar da bobagem?
Bem.
Mal agora naquela hora – elas não se encontravam mais na cadeira feito cabide.
Entenda-se: faço duma cadeira de pau o pau do cabide, hoje tudo de plástico
portanto cabides são de plástico; enfim é o lugar onde deixo à noite ao dormir
as vestes do dia.
Com
tudo nada na cadeira, elona (a minha é à moda antiga caipira de pernas largas
soltas) ela não estando. Ah depois me recordei haver na madrugada indo às
necessidades fisiológicas relanceado a calça na cadeira e disse-lhe gozando:
"óia aqui sadona, num saia daí". Em suma constatei de manhã não
aguardar-me a roupa. Ora, teria deixado a peça no armário, um guarda-roupinha a
esconder da vista a bagunça o estardalhaço duma casa; realmente apartamento
barato na carestia do tempo, no tempo em que o ser humano se empilha um por
cima doutro nos edifícios das megalópoles. Deu pra entender?
Entendamo-nos:
a calça, insisto ser caipira emigrado à civilização e no mato matamos 'as' e
pomos 'a', às calças dizemos a calça. A calça lá não estando não se encontrava
no lugar a bendita ou safada, saíra fugira desocupara a cadeira onde estivera imitando
gente por forma escorrida enquanto meu sono.
Bolas,
claro me assustar um pouco; urgia ir pra vida, levantar-me higienizar-me
alimentar-me e partir às exigências diárias e foi o que fiz. Acabei minha parca
refeição e daí...
Cadê
a roupa! nós caipiras falamos
"cadê" não o que é da... uai, onde? e a camisa, a cueca já em mim não
desocupara fugira saíra estava comigo; mas e o resto!
Bobo,
me puxei orelhas, ocê pega no armário umas novas outras limpas vestíveis
usáveis e pronto. Olhei em muxoxo a cadeira vazia. Abri fechei o móvel, ele
também vazio...
Conscientizei
haver havido antes complô e daí as peças, combinadas, sumiram surrupiaram-se!!
E
agora? me perguntei; ah primeiro pensei ladrão. Porém e aquele batido negócio
de um ladrão em casa pobre só levar susto. Ladrão a se prezar deixaria o
computador o celular o dinheiro vivo em notas usadas usáveis embora fedendo?
Não fora ladrão. Tudo me fugira me abandonara.
Agora!?
andava nu, seminu. Como faria.
Ocorreu-me
no caso da calça fuga à parte alguma; sem destino decerto. Não ir-me-ia
conformar. Tomei a sensata alternativa de procurar descobrir perseguir prender
quiçá justiçá-la. Um corretivo e tanto faria (ainda não pensara qual).
Todavia
que fazer imediato à descoberta fantástica daquele sumiço. Sair nu, seminu! e o
público e o constrangimento dum caipira que sequer urinando na rua por vergonha
na cara. Nisso imaginei ter apenas uma saída sem andar pelado na rua com a
condizente prisão, aliás o viver já é prisão. Descontemos isso; que fazer a
sair procurar achar perseguir prender trazer pra casa puxando pelas orelhas a
calça, as calças se ficar melhor nesse pior aqui.
Aqui
um porenzão. De que maneira o povo a me receber, e o explicar inexplicável
inexplicado! Nisso pus qual ponte a minha situação psicológica e o povo me
vendo. Porque nesta enorme selva de pedra comumente já me sinto estrangeiro,
mesmo de calças. Daí como explicar inexplicado inexplicáveis?
Enrolei-me
todo na toalha de banho, única veste sobrante no centésimo andar com meu
apartamento preso e cheio de exclamações e interrogações. Assim me coloquei
fora nas vias públicas para encontrar a vestimenta rebelde fujona (ou somente
gozadora).
Não
fui além da primeira alameda formal e bela e movimentada e curiosa e policiada.
Deram-me, provisoriamente, no lugar umas calças riscadas enxadrezadas
numeradas.
São Paulo maio
2019
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