sexta-feira, 14 de junho de 2019


(conto) O Presente

É passado. Sumiu no tempo; quase da memória, piormente não deixando saudade. Tem coisas que o ser humano quer esquecer põe debaixo num de cima. Mas, argumenta-se, não deve estar presente um presente? deve, não se deve esquecer também a pessoa que oferece as coisas, pois que sempre a gente se dá com aquilo que se dá; dá-se a si mesmo quem deu algo; por mera ingratidão da memória nos esquecemos ou transmutamos João ofertando a joia ou em Joana quem deu o beijo. Mistura lá dentrão o cinzento da massa. Ou terá sido a vizinha a tia ou o compadre. Contudo o presente está no pátio berrando (aqui um exagero) berrando presença pretensamente a agradar-nos. Não agradara, nem berrava.
Mesmo porque onde se viu elefante berrar!
Bem. Que faz elefante: fala? mia muge ladra zurra pia, ai esses bichos... fala decerto, fala na sua linguagem paquidérmica. Nós, nós humanoides supondo perfeições, somos nós que não conseguimos decifrar a escrita. Pera lá, escrita não é possível, língua, admitamos língua. Seja. Fazia um barulho medonho o animalão.
Cala a boca, desgraçado, falou falando baixo para não acordar vizinhos. Cala já já! imperou. Elão deste tamanhãozão sorriu inocência e ficou decerto se perguntando “o que será fiz ao meu amo, tão brabo”...
Chegou mansinho aos pés de patas meio quadradas do presente (de grego é cavalo, a gente sequer sabendo se branco como o de Napoleão se cor de burro quando foge). O elefante se alegrou, apreciava deveras aquele homenzinho de cabelos espetados com seus bigodes que mais pareciam fios de arame preto, um risco de cada lado, e será (perguntou o monstrão) que não atrapalha para comer, gente costuma limpar beiços na refeição. Se alegrou abanando a tromba pra lá pra cá, interminável, ele quase hipnotizando o dono. Porém este não ofertou comida – ralhou com ele. Se não se envergonhava a gritar alto assustando os amigos; e se despertasse o guarda-noturno roncando... Cala essa boca, já falei!
Voltou para a casa, escondeu o frio debaixo do cobertor, recomeçou a contar carneirinhos, perdera a conta na interrupção do elefante, recomeçou do zero, não, do primeiro carneiro, só mudou a cor, chegou a três mil e trezentos e duas ovelhas... eis o presente num bater patas ou a empurrar não sei quê lá embaixo. Parou. De contar. Xingou. Vestiu-se, ia lá de pijamas passar vergonha no possível despertamento da vizinha do quarenta e quatro! contudo foi com chinelos. Chinelo ao menos é calçado e vira arma quando a criança embirra. Qual menino o meninão de trombas.
Seu (falou um impublicável embora baixinho, educadamente) não disse para se calar! Mexeu a tromba sem entender. Calar não é apenas ausência de falar: subentende-se não fazer barulho algum! É isso. Quer chinelos? (Pensou o bichão: como calçá-los, todavia não respondeu). Psiu, nada de derrubar coisas, barulhar o ambiente. Isto é um condomínio. Após as vinte e duas horas silêncio, ou terei problemas (pensou vizinha do quarenta e quatro). Estamos entendidos?
Puxou a coberta de novo, antes, aproveitando a segunda levantada madrugadão, puxa já tem galo avisando, foi urinar tomar cafezinho, dizem que café corta o sono, pôs cobertas, repôs, recomeçou três mil e quantos? recomeçou então por via das dúvidas do terceiro milésimo cordeiro. Entretanto não chegou a cinco mil, lá o elefante se raspava não encontrando jeito para dormir.
Desceu a ensinar com quantos paus se faz uma canoa e outras verdades; não dorme? conte carneiros, não se aproveite de minha contagem já adiantada, conte da primeira ovelha em diante. Antes de falar isso xingou a mãezinha, no caso uma enorme ‘elefôa’ (ou elefanta?) vivendo na África longíssima de longínqua. O filho não entendeu a ofensa, o que teria feito mamãe: onde estaria naquelas horas, madrugada, já se ouvia cucurucus e uma que outra condução rolando lá fora. O amo esfregou os olhos, pregou sua moral burguesa, a tromba quase foi ao chão, arrasada... Ah meu Deus, essa não, pensou o homem: quer ver que tenho de levá-lo agora ao analista tentar vencer o sentimento de culpa! Andavam agora pesarosos, tanto o ofendido quanto o ofensor.
Pera lá, meu nego: amanhã, amanhã não, é sexta, sábado levo você ao circo! Tem pipoca tem sorvete tem palhaço. Abriram a janela do quarenta e quatro e o homem pensou (levo sim essa porcaria ao circo, pra ficar lá mesmo!) mas não disse coisa alguma, somente reafirmou a chantagem na forma: silêncio é igual a circo. Sorriram tromba e boca.
Boca fechada, subiu mansinho pra não despertar suspeitas, foi contar carneiros, pôs o pijama a coberta e recomeçou do cinco mil e um, por faltar certeza onde parara. Do cinco mil e dois em diante não vinha mais carneirinhos nem o sono. Iniciou a rememorar sua desdita, a se distrair, até que chegasse o maldito despertador avisando acordar; passou a rever no cinema da mente sua vida toureando um elefante, desde que o recebera de presente natalício, quem seria seu inimigo... não se lembrava. Lembrou-se das mamadeiras, dos brinquedos trazidos ao elefante, a tentativa de matriculá-lo no jardim da infância, tudo frustrado, haja vista fosse ainda analfabeto; a luta para empurrá-lo a brincar com os outros meninos e o pior: o relacionamento com as pessoas dos apartamentos vizinhos (imediato ouviu na memória a matraca do quarenta e quatro). Desistira andar com o elefante nas ruas, fora vezes levá-lo pastar no terreno baldio, mas e a encrenca no trânsito, as buzinas, o grilo fardado implicando querendo multar!  No entanto o pior era não poder sair sem uma pazinha, pazinha? um tonel, a recolher as fezes do garotão (a do quarenta e quatro queria, exigia, que enxugasse o xixi também, imagine-se como era louca a senhora, é louca). Comida, se afundava no supermercado e mais no pendura da vendinha no bairro. Ah o inimigo, maldito sujeito (e se fosse a tia!) maldito quem lhe dera o presente! Agora contava muitíssima ovelha para dormir... onde parara!? parecia cinco mil, cinco mil e quantas? Uma soneira... Porém havia ainda o pior do pior.
O pior é que o despertador não sabia nadinha do drama.
Marília   novembro  2002



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