terça-feira, 18 de junho de 2019


(conto) Férias da Loucura

Eu te falo procê... disse, diz o sujeitão estufado o quanto possa, engolindo tudo pela frente até concordâncias discordantes; aliás o brasileiro comum não concorda com o português e com o português comum; haja vista a anedota; e daí a discordância nestes dias sobre o acordo ortográfico unindo e simplificando na complexidade todos que falam a língua, aqui importada, importadíssima. Todavia ele não pensa nisso, não pensa, pensa a loucura querendo fugir agora da loucura da capital ao interior sossegado. E continua ele, ela não aprecia mato, “mato me mata”, não gosta, te digo que não, eu gosto. Também não combinamos noutras coisinhas. A Maria ocê sabe é magricela; e cultiva as magrezas. Acredita que nas férias passadas levou pra selva, a de Peripipoca ou peri amendoim já esqueci, lá onde macacos e papagaios, levou uns plastiquinhos – eu gozo sou gozador gozo nela ao dizer “tuperére” ela fala certinho num patriótico inglês, versada no grego demótico latim sânscrito essas coisas arrevesadas e vive a viver enrolando a língua com os outros; eu não, pra mim é tuperére, tem uns tupererinhos que são umas gracinhas semelhando brinquedo; e tem os tupererões assim de grande a caber mil comidas toneladas de gostosuras, caberia num um boi dos volumosos dentro, isto outra de nossas diferenças. Sim mas não dizem “vive la différence”? Ela é por alimento vegetal vegetariana à beça, põe tudo que é capim dentro dos plastiquinhos, os tupererinhos como falei; fecha, antes tira o ar pra não estragar o chuchu a batata a beterraba a verdura, aí fecha bem, enrola nuns papeisinhos depois nuns paninhos bordados, põe tudo numa cesta e daí sim sai, não às compras porém ao mato comigo. Eu não, te digo procê, não: ingiro carne. Todas carnes, não estando na fase de carniça é muito claro; como traço rasgo mordo mastigo chupo os ossos, jogo os ossos pros cachorros brigarem entre si ou deixo no chão – é engraçadinho as formigas em roda do osso, têm umas que são parecidas comigo e adoram carne, carnívoras; pobrezinhas, não sobra nada a elas devorarem dos tupererinhos da Maria, aqueles restos sem graça. Bem, isto uma outra diferença no casal.
Então, tava ti falando procê, nós fomos de férias a fugir daqui dessa loucura de cidade infernada com seu trânsito louco com sua violência doida. Piramos pra selva.
Arrumamos o carro, dirigimos as rodas de pneus novos e... ah realmente assisti e fui no assento ao lado pois quem faz tudo é a magrelinha, até choferar é ela e o faz bem. Tanto que me desligo da loucura da estrada em fugindo da loucura da capital: durmo (a oposição diz “o Zé ronca!” deve ser intriga) durmo, quando acordo ói nós já na floresta.
Tomamos um chalé, eu paguei a conta, digamos a verdade; ela o carro o combustível a oficina a manutenção a comida; fiz a concessão pagar o abrigo.
Agora tamos na imensidão de mataria, tem árvores tem cipós tem carreadores tem grilo e o grilo do temor dos bichos... A Maria anda agarradinha em mim, medrosa, vai que... Eu não, sou tarzã valente um brutamontes com um bucho destamanhão cheiinho de carne: como o frigorífico como o matadouro como o pasto; mastigo, bem não, sim mais ou menos, das trinta e três mastigadas estabelecidas pela ciência abro-fecho a bocarra umas sete vezes, sete é de mentiroso dez com certeza. Engulo, arroto, assopro, ‘pufo’. Ela: sem-educação. Rio-me, beijo a ofensa, a ofensa se ri; continuamos a trilha. Eu fotografo tudo até tudinho com tê sem tê que vejo. Clico aqui clico acolá. Ela olha. De repente, de repente em casa não custa muito, acontece toda hora: me dá fome, agora no mato fome que não mata de tanta fome. Como as reservas, conservas também; ela sorri abana abalançando a cabeça linda. Me imita, ou iria ficar apreciando um porco comer um boi! ela amavelmente me apelida porco nesses momentos. Me imita, tira da cesta mil tupererinhos, tem um rosinha que mais aprecia, onde chuchu batata capim na conserva. Tira come delicadamente sem sujar as mãos, as mãos! os dedos afilados; assim mesmo se limpa, limpa. Guarda, enrola as vasilhas plásticas nuns papéis virginalmente brancos, após enrola nos panos de prato decorados com florinhas menininhas gatinhas coisinhas. Guardinha na cestona. Eu arroto a porca a vaca a cabra; gargalho. Retomamos a trilha o cheiro o hálito do natural do puro longe da loucura. Suamos até, ‘fédo’ catingo; ela abalança outra vez a cabeça, espirra esprei no sovaco, guarda afinal as coisas, prosseguimos. Observando comendo clicando guardando, eu guardo recolhendo tudo que seja tranqueirinha, ela diz nestes termos; enfim tudo que achar bonito e engraçado ou só curioso: folha ramo pedra e o que a câmera guardou pra revelação posterior, já na loucura na volta infelizmente...
Assim dias. Noite descanso as banhas, ela que fala e fala no peso de toneladas, ou descanso das latinhas de cerveja que a oposição condena; ela a ler. Leva pro mato bibliotecas e mais bibliotecas pra estudar, enquanto durmo. É outrinha das nossas différences.
Assim dias e noites, noites e dias e semanas mês quase. Até aquele santo dia.
Num ti falei procê? Ela é levinha, tanto que antes eu vivia por cima; agora após tanta vaca e tantos frigoríficos e tantos matadouros e tanto dormir, durmo por baixo; ou então achatá-la-ia! Magricela só a Maria como ninguém, mesmo os vegetarianos outros. Porém ágil esperta viva; e bela, vamos lá. Eu pachorrento mas vidrado numa trilha no mato. Medo de papagaio e macacos? ela acha gracioso a graça deles rindo deles. Embora sempre na vigília; já dizia um conservador que o preço da liberdade é a constante vigilância. Da liberdade e da vida...
Eu na frente no carreador estreito entre barrancos e buracos nas montanhas escorregadias, nos espaços selváticos planos. Ela atrás, colada ao meu corpanzil... vai que... Bem. Aí pelas tantas, o sol se fora, a sombra a noite o medo a chegar – rugiram! Se fiquei com medo? eu? num ti falei procê que sou valentão! Pois corremos demais do dinossauro, eu na disparada, a máquina de prender a visão dinossáurica caída por aí, os tupererinhos e a cesta não se sabendo onde; e ela grudadinha no meu gangote lá encimão a cavalo no porco... Até ontem.
Até amanhã.
Marília   março  2009



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