(conto) Férias da Loucura
Eu te falo
procê... disse, diz o sujeitão estufado o quanto possa, engolindo tudo pela
frente até concordâncias discordantes; aliás o brasileiro comum não concorda
com o português e com o português comum; haja vista a anedota; e daí a
discordância nestes dias sobre o acordo ortográfico unindo e simplificando na
complexidade todos que falam a língua, aqui importada, importadíssima. Todavia
ele não pensa nisso, não pensa, pensa a loucura querendo fugir agora da loucura
da capital ao interior sossegado. E continua ele, ela não aprecia mato, “mato
me mata”, não gosta, te digo que não, eu gosto. Também não combinamos noutras
coisinhas. A Maria ocê sabe é magricela; e cultiva as magrezas. Acredita que
nas férias passadas levou pra selva, a de Peripipoca ou peri amendoim já
esqueci, lá onde macacos e papagaios, levou uns plastiquinhos – eu gozo sou
gozador gozo nela ao dizer “tuperére” ela fala certinho num patriótico inglês,
versada no grego demótico latim sânscrito essas coisas arrevesadas e vive a
viver enrolando a língua com os outros; eu não, pra mim é tuperére, tem uns
tupererinhos que são umas gracinhas semelhando brinquedo; e tem os tupererões
assim de grande a caber mil comidas toneladas de gostosuras, caberia num um boi
dos volumosos dentro, isto outra de nossas diferenças. Sim mas não dizem “vive
la différence”? Ela é por alimento vegetal vegetariana à beça, põe tudo que é
capim dentro dos plastiquinhos, os tupererinhos como falei; fecha, antes tira o
ar pra não estragar o chuchu a batata a beterraba a verdura, aí fecha bem,
enrola nuns papeisinhos depois nuns paninhos bordados, põe tudo numa cesta e
daí sim sai, não às compras porém ao mato comigo. Eu não, te digo procê, não:
ingiro carne. Todas carnes, não estando na fase de carniça é muito claro; como
traço rasgo mordo mastigo chupo os ossos, jogo os ossos pros cachorros brigarem
entre si ou deixo no chão – é engraçadinho as formigas em roda do osso, têm
umas que são parecidas comigo e adoram carne, carnívoras; pobrezinhas, não sobra
nada a elas devorarem dos tupererinhos da Maria, aqueles restos sem graça. Bem,
isto uma outra diferença no casal.
Então, tava ti
falando procê, nós fomos de férias a fugir daqui dessa loucura de cidade
infernada com seu trânsito louco com sua violência doida. Piramos pra selva.
Arrumamos o
carro, dirigimos as rodas de pneus novos e... ah realmente assisti e fui no
assento ao lado pois quem faz tudo é a magrelinha, até choferar é ela e o faz
bem. Tanto que me desligo da loucura da estrada em fugindo da loucura da
capital: durmo (a oposição diz “o Zé ronca!” deve ser intriga) durmo, quando
acordo ói nós já na floresta.
Tomamos um
chalé, eu paguei a conta, digamos a verdade; ela o carro o combustível a
oficina a manutenção a comida; fiz a concessão pagar o abrigo.
Agora tamos na
imensidão de mataria, tem árvores tem cipós tem carreadores tem grilo e o grilo
do temor dos bichos... A Maria anda agarradinha em mim, medrosa, vai que... Eu
não, sou tarzã valente um brutamontes com um bucho destamanhão cheiinho de
carne: como o frigorífico como o matadouro como o pasto; mastigo, bem não, sim
mais ou menos, das trinta e três mastigadas estabelecidas pela ciência
abro-fecho a bocarra umas sete vezes, sete é de mentiroso dez com certeza.
Engulo, arroto, assopro, ‘pufo’. Ela: sem-educação. Rio-me, beijo a ofensa, a
ofensa se ri; continuamos a trilha. Eu fotografo tudo até tudinho com tê sem tê
que vejo. Clico aqui clico acolá. Ela olha. De repente, de repente em casa não
custa muito, acontece toda hora: me dá fome, agora no mato fome que não mata de
tanta fome. Como as reservas, conservas também; ela sorri abana abalançando a
cabeça linda. Me imita, ou iria ficar apreciando um porco comer um boi! ela
amavelmente me apelida porco nesses momentos. Me imita, tira da cesta mil
tupererinhos, tem um rosinha que mais aprecia, onde chuchu batata capim na
conserva. Tira come delicadamente sem sujar as mãos, as mãos! os dedos
afilados; assim mesmo se limpa, limpa. Guarda, enrola as vasilhas plásticas
nuns papéis virginalmente brancos, após enrola nos panos de prato decorados com
florinhas menininhas gatinhas coisinhas. Guardinha na cestona. Eu arroto a
porca a vaca a cabra; gargalho. Retomamos a trilha o cheiro o hálito do natural
do puro longe da loucura. Suamos até, ‘fédo’ catingo; ela abalança outra vez a
cabeça, espirra esprei no sovaco, guarda afinal as coisas, prosseguimos.
Observando comendo clicando guardando, eu guardo recolhendo tudo que seja
tranqueirinha, ela diz nestes termos; enfim tudo que achar bonito e engraçado ou
só curioso: folha ramo pedra e o que a câmera guardou pra revelação posterior,
já na loucura na volta infelizmente...
Assim dias.
Noite descanso as banhas, ela que fala e fala no peso de toneladas, ou descanso
das latinhas de cerveja que a oposição condena; ela a ler. Leva pro mato
bibliotecas e mais bibliotecas pra estudar, enquanto durmo. É outrinha das
nossas différences.
Assim dias e
noites, noites e dias e semanas mês quase. Até aquele santo dia.
Num ti falei
procê? Ela é levinha, tanto que antes eu vivia por cima; agora após tanta vaca
e tantos frigoríficos e tantos matadouros e tanto dormir, durmo por baixo; ou
então achatá-la-ia! Magricela só a Maria como ninguém, mesmo os vegetarianos
outros. Porém ágil esperta viva; e bela, vamos lá. Eu pachorrento mas vidrado
numa trilha no mato. Medo de papagaio e macacos? ela acha gracioso a graça
deles rindo deles. Embora sempre na vigília; já dizia um conservador que o
preço da liberdade é a constante vigilância. Da liberdade e da vida...
Eu na frente no
carreador estreito entre barrancos e buracos nas montanhas escorregadias, nos
espaços selváticos planos. Ela atrás, colada ao meu corpanzil... vai que...
Bem. Aí pelas tantas, o sol se fora, a sombra a noite o medo a chegar –
rugiram! Se fiquei com medo? eu? num ti falei procê que sou valentão! Pois
corremos demais do dinossauro, eu na disparada, a máquina de prender a visão
dinossáurica caída por aí, os tupererinhos e a cesta não se sabendo onde; e ela
grudadinha no meu gangote lá encimão a cavalo no porco... Até ontem.
Até amanhã.
Marília março
2009
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