Orelha (conto
n° 421)
Diria estúpida brincadeira; todavia ninguém queira
explicar arrumação de estudante... E não é que lhe botaram uma orelha nos
bolsos!
Provavelmente isso aconteceu não
por obra do acaso, deixemos pra lá os exageros. Alguém na aula de Citologia ou
na do Dr. Piteus, velhinho atrás das garrafas dos óculos, quem sabe? sujou o
nome de Hipócrates, brincando em coisas sérias. O certo foi o errado aparecer
depois, bem depois. Que fazer? apareceu depois.
Depois de muito andar na
multidão, a tomar dinheiro em pagamento de qualquer coisa adquirida –
deparou-se com a orelha! uma orelha em decomposição... devia ser duma pessoa
idosa, pelas características, ou assim parecia por estar encolhida quase
mumificada; mas quem sabe não estivesse assim, cansada de ouvir bandalheiras
por esse mundo de Deus! – encolhidinha
encolhidinha e quente ainda pela quentura do bolso esquerdo do
residente. Não. Não gostou, por certo. É lógico não haver gostado, por incômodo,
no meio do povaréu. Não apreciou por já ser quase médico. Não, não deve ter
sido por isso: qualquer um desgostaria pelo achado dantesco. Além do mais,
tinha um porém chato. É que em lugar de desligar-se dos afazeres da escola
médica e do hospital, estava ali aquela orelha indecente, arreganhada, a
lembrar-lhe compromissos cirúrgicos e anatômicos. Perdeu inclusive a graça em
ver as garotas cruzando consigo. Ora, não era para menos.
Nesse ponto teve início um
inferno nas relações.
A diaba da orelha mostrou-se
enxerida, metendo o bedelho nas coisas do moço, pondo a cara onde não fora
chamada...Logo no balcão da Loja dos Presentes – ele não iria voltar à
Faculdade apenas para devolver a orelha! continuou nas compras – loguinho no balcão ele pediu uma corrente,
quinquilharia para não-sei-quem familiar, ela se metendo, criticando os quilates,
dizendo falsificada. Saiu, deixou a balconista falando a olhar o freguês indo
embora e quem sabe pobrezinha tomando pito do patrão. Depois foi na
confeitaria, com palpites nos doces, que o creme andava azedo, tinha passado
barata no alimento etc. etc.; e se foi sem comer confeitos. Mais adiante impôs
um não-sei-quê, o estudante comprou para não discutir. Por vingança, mudou a
orelha ao bolso direito, misturado a notinhas fedidas de um cruzeiro! Benfeito.
E chegou a hora da compra de lenços: um porque era riscado, o outro por ser
vermelho, um terceiro por amarelo fácil aparecer sujeira e sem cor, na opinião
lá da orelha. Que raiva o pobre residente sentiu! Novamente vingança do rapaz:
parou num açougue, a amedrontá-la, sentir um medinho ao menos.
Entretanto já não dava para
continuar a via-sacra, preferiu voltar. Não disse nada, casmurro. Assim mesmo
comentou lá com os seus botões:
--Por sorte você apenas ouve,
nojenta! (mesmo assim já tagarelou bastante!) se fosse uma língua que os
crápulas houvessem atirado nos meus bolsos, estaria irremediavelmente perdido.
Ribeirão Preto dezembro 1979
Nenhum comentário :
Postar um comentário