sábado, 19 de novembro de 2016

3363 – Um acabar

         Agora estava, eu estava visto eu existir, ainda; agora estava a entrar pela área daquela pré-morte ou melhor dizendo nesse pior ‘daquele para-acabar’; a acabar entre mil velhinhos e seus chorinhos e suas alegriazinhas curtas e limitadas, limitado tudo no ai, ai expressivo ou aizinho nem um pouco uma gracinha. Trazia agora um ontem carcomido por um desastre de percurso. Antes foram alegrias mansas, mansas demais pela velhice da máquina que me contém quase como relógio por décadas. Antes um ontem cheio de graças...
         Como é a promessa? é a graça do descuido ou a da ingenuidade no ser. Encontrara por aí, aí pelos recantos do interior do país, encontrara Vivance. Aceitara a fêmea da espécie cansaço por companhia, quiçá companhia inesperada então. Isto porque me propusera entregar o fardo e o bagaço sem luta. É indigno? não me importando opiniões. Contudo ela apareceu, ela desapareceu.
         Vivance me convencera ser necessária; exato quando tudo nada mais é preciso. Foram semanas meses anos tempo no incontável e mesmo no insondável tempo. Fixei-me nos seus carinhos, no costume de me alisar a barba; deslizava sempre pelo meu rosto seus dedos finos das mãos leves, como fora um barco a beijar a espuma branca na tona, ou uma borboleta bela e extravagante a oscular a flor despetalando; e o fazia em gritinhos mudos, mais na tonalidade de toques quase imperceptíveis. Mas eu sentia, me arrepiando o ser. Esse o hábito do ser, ótimo ser para um convívio nada exigente. Acostumara o casal nesse convívio a se perdoar, a  fim de perdurar naquele paraíso ou sonho divino.
         Vivance naquela tarde morna deixara o companheiro à sua preguiça ou à sua teimosia, à qual dava outro nome; e saíra a espraiar, sob o pretexto sempre absurdo do ‘volto logo’. Não tornou...
         Após, um tanto aflito não nego porque também eu existia na existência da multidão na rua, agora empurro um pouco sem educação aqueles curiosos interessados flagrar o acidente de trânsito; todos a falar todos a comentar o estrago e a anormalidade meio normal, de tanto ocorrer; todos a explicar todos dando sua versão, ninguém querendo se ater às normas e exigências dos policiais e bombeiros, todos a se empurrar para ver melhor o pior: os irraionais são menos piores que o melhor homem quando o homem se acha com o direito saber as coisas que não deve saber, ou com isso provando não saber. A custo penetro entro entre cotovelos e me embrenho de vez na brecha ocasional, para também (não disputar não:) ter o direito de enxergar pedaços de carros, a rigor um só embriagado, e pedaços de gente, a rigor também uma pessoa somente. Estragada, morta, em pedaços que já não formam o todo. Vejo postas postas a esmo no chão sujo banhado de vermelho; e outros restos como objetos de usos de um ser vivente, já desnecessários!
         Devo ter desfalecido, não sei; sei não haver chorado pois as lágrimas são melhor vertidas no íntimo e na solidão.
         O tempo passa passou. Ou não.
         Entro naquela pré-morte e não trago se não um pertence, caro aos meus pertences, levo a balançar como butim numa guerra linda perdida, a bolsa do viver feminino do único ser que me expressava carinho na vida.
Marília   novembro  2016











          

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