3363 – Um acabar
Agora estava,
eu estava visto eu existir, ainda; agora estava a entrar pela área daquela
pré-morte ou melhor dizendo nesse pior ‘daquele para-acabar’; a acabar entre
mil velhinhos e seus chorinhos e suas alegriazinhas curtas e limitadas,
limitado tudo no ai, ai expressivo ou aizinho nem um pouco uma gracinha. Trazia
agora um ontem carcomido por um desastre de percurso. Antes foram alegrias
mansas, mansas demais pela velhice da máquina que me contém quase como relógio
por décadas. Antes um ontem cheio de graças...
Como é a
promessa? é a graça do descuido ou a da ingenuidade no ser. Encontrara por aí,
aí pelos recantos do interior do país, encontrara Vivance. Aceitara a fêmea da
espécie cansaço por companhia, quiçá companhia inesperada então. Isto porque me
propusera entregar o fardo e o bagaço sem luta. É indigno? não me importando
opiniões. Contudo ela apareceu, ela desapareceu.
Vivance me
convencera ser necessária; exato quando tudo nada mais é preciso. Foram semanas
meses anos tempo no incontável e mesmo no insondável tempo. Fixei-me nos seus
carinhos, no costume de me alisar a barba; deslizava sempre pelo meu rosto seus
dedos finos das mãos leves, como fora um barco a beijar a espuma branca na tona,
ou uma borboleta bela e extravagante a oscular a flor despetalando; e o fazia
em gritinhos mudos, mais na tonalidade de toques quase imperceptíveis. Mas eu sentia,
me arrepiando o ser. Esse o hábito do ser, ótimo ser para um convívio nada
exigente. Acostumara o casal nesse convívio a se perdoar, a fim de perdurar naquele paraíso ou sonho divino.
Vivance
naquela tarde morna deixara o companheiro à sua preguiça ou à sua teimosia, à
qual dava outro nome; e saíra a espraiar, sob o pretexto sempre absurdo do
‘volto logo’. Não tornou...
Após, um tanto
aflito não nego porque também eu existia na existência da multidão na rua,
agora empurro um pouco sem educação aqueles curiosos interessados flagrar o
acidente de trânsito; todos a falar todos a comentar o estrago e a anormalidade
meio normal, de tanto ocorrer; todos a explicar todos dando sua versão, ninguém
querendo se ater às normas e exigências dos policiais e bombeiros, todos a se
empurrar para ver melhor o pior: os irraionais são menos piores que o melhor
homem quando o homem se acha com o direito saber as coisas que não deve saber,
ou com isso provando não saber. A custo penetro entro entre cotovelos e me
embrenho de vez na brecha ocasional, para também (não disputar não:) ter o
direito de enxergar pedaços de carros, a rigor um só embriagado, e pedaços de
gente, a rigor também uma pessoa somente. Estragada, morta, em pedaços que já
não formam o todo. Vejo postas postas a esmo no chão sujo banhado de vermelho;
e outros restos como objetos de usos de um ser vivente, já desnecessários!
Devo ter desfalecido,
não sei; sei não haver chorado pois as lágrimas são melhor vertidas no íntimo e
na solidão.
O tempo passa
passou. Ou não.
Entro naquela
pré-morte e não trago se não um pertence, caro aos meus pertences, levo a
balançar como butim numa guerra linda perdida, a bolsa do viver feminino do
único ser que me expressava carinho na vida.
Marília
novembro 2016
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