As Baratas
Custou um pouco. O pouco era na época uma fração de
milênios. Elas não perdoavam, brigavam mesmo entre si, na disputa de grânulos
adocicados, de lixos em
esparramo. Na cama, na despensa, na cozinha, andando com as
patas grudentas no terreiro. Uma gelatina esbranquiçada e pegajosa, um cheiro
fétido característico. De milhões a nonilhões. Fervilhantes. As mamãs
carregando dezenas de filhotes no ovo grudado na traseira; papais inflamados,
esvoaçando por aí. Todas cores, todos os formatos, todos os tamanhos... Não era
uma invasão. Já haviam invadido e tomado a tudo...
Um
restinho humano na cidade abandonada. Em fuga desesperada, para nenhum lugar:
às tontas: não havia lugar. As pragas e os nomes-feios eram apenas pragas e
nomes-feios. Enquanto elas se multiplicavam e cresciam em termos numéricos
astronômicos; liquidavam com o alimento
do homem. E com ele mesmo, por extensão. Família desgarrada, subindo a
torre que acabava nas nuvens. Pelo menos o planeta andava silencioso. Somente
uns poucos gritavam no caminhar para cima. Um cair para cima.
São Paulo
abril 1978
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