quinta-feira, 17 de novembro de 2016

As Baratas

         Custou um pouco. O pouco era na época uma fração de milênios. Elas não perdoavam, brigavam mesmo entre si, na disputa de grânulos adocicados, de lixos em esparramo. Na cama, na despensa, na cozinha, andando com as patas grudentas no terreiro. Uma gelatina esbranquiçada e pegajosa, um cheiro fétido característico. De milhões a nonilhões. Fervilhantes. As mamãs carregando dezenas de filhotes no ovo grudado na traseira; papais inflamados, esvoaçando por aí. Todas cores, todos os formatos, todos os tamanhos... Não era uma invasão. Já haviam invadido e tomado a tudo...
         Um restinho humano na cidade abandonada. Em fuga desesperada, para nenhum lugar: às tontas: não havia lugar. As pragas e os nomes-feios eram apenas pragas e nomes-feios. Enquanto elas se multiplicavam e cresciam em termos numéricos astronômicos; liquidavam com o alimento  do homem. E com ele mesmo, por extensão. Família desgarrada, subindo a torre que acabava nas nuvens. Pelo menos o planeta andava silencioso. Somente uns poucos gritavam no caminhar para cima. Um cair para cima.

 São Paulo  abril 1978

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